Bezerra de Menezes: Um Homem que Aprendeu a Servir
Crônica Espírita
*Enoque Alves Rodrigues
Parte I — O menino que escutava o silêncio
O sertão cearense do século XIX não era apenas um lugar; era um teste. O sol ensinava resistência, a seca ensinava espera, e o silêncio ensinava a escutar. Foi nesse cenário que nasceu Adolfo Bezerra de Menezes, em 29 de agosto de 1831, na pequena Riacho do Sangue — nome forte para uma terra que, paradoxalmente, ensinaria mansidão.
Ainda menino, Bezerra aprendeu cedo que a vida não se explicava apenas pelo que se via. Havia algo além do visível, algo que pulsava no sofrimento das pessoas simples, nos olhos cansados dos trabalhadores, nas preces murmuradas à noite. A infância, marcada por dificuldades financeiras e pela perda precoce da mãe, não o endureceu; ao contrário, abriu nele uma sensibilidade incomum.
Enquanto outros meninos aprendiam a medir força, ele aprendia a medir dor. Não a dor teatral, mas a cotidiana — a que não grita, apenas continua. Essa escuta silenciosa moldaria o homem que viria depois.
Aos poucos, o jovem sertanejo compreendeu que estudar não era apenas um privilégio, mas uma responsabilidade. Cada livro lido parecia um compromisso firmado com aqueles que não tinham acesso ao conhecimento. Assim, quando deixou o Ceará rumo ao Rio de Janeiro para estudar Medicina, não foi apenas um deslocamento geográfico. Foi o início de uma travessia interior.
Parte II — O médico que receitava presença
O diploma de médico poderia ter sido um passaporte para o conforto, mas Bezerra de Menezes nunca confundiu sucesso com utilidade social. No Rio de Janeiro do Império, ele se destacou rapidamente como profissional competente, mas foi sua postura humana que o tornou inesquecível.
Consultórios tinham portas; a casa de Bezerra tinha acolhimento. Atendia ricos e pobres com o mesmo olhar atento, mas era entre os mais necessitados que seu nome começou a ganhar outro significado. Não cobrava de quem não podia pagar. Muitas vezes, pagava ele mesmo os remédios. Outras vezes, oferecia algo ainda mais raro: tempo.
Ganhou, assim, o apelido que atravessaria gerações — “O Médico dos Pobres”. Não por propaganda, mas por coerência. Para ele, a Medicina não era comércio, era vocação. O corpo adoecia, mas a alma também precisava ser ouvida.
Nas vielas, nos cortiços, nas casas simples, Bezerra compreendeu algo que os livros não ensinavam: a doença quase sempre vinha acompanhada de abandono. E sua maior cura era não abandonar ninguém.
Parte III — O político que não negociou a consciência
Entrar para a política foi, para Bezerra, uma extensão do mesmo impulso que o levou à Medicina: servir. Foi vereador, deputado e homem público respeitado. Em um ambiente onde acordos fáceis eram comuns, manteve-se firme em valores que não mudavam conforme o vento.
Não buscava holofotes, mas responsabilidade. Defendia educação, saúde e justiça social quando essas palavras ainda não eram slogans, mas necessidades urgentes. Sua atuação política não era barulhenta, era consistente — e talvez por isso tenha incomodado.
Bezerra entendia que governar era cuidar de gente, não de cargos. E quando percebeu que o poder poderia afastá-lo de sua essência, soube recuar sem ressentimento. Poucos fazem isso. Menos ainda fazem em paz.
Parte IV — O espírita que escolheu o amor como método
O encontro com o Espiritismo não foi ruptura, foi continuidade. Ao conhecer as obras de Allan Kardec, Bezerra encontrou linguagem para algo que já vivia: a caridade como lei moral.
Em uma época de perseguição e preconceito religioso, assumir-se espírita exigia coragem. Ele assumiu. Não com agressividade, mas com exemplo. Tornou-se um dos maiores divulgadores do Espiritismo no Brasil, presidindo a Federação Espírita Brasileira em momentos decisivos.
Sua fé não era de discurso inflamado, mas de prática diária. Pregava a tolerância, o diálogo inter-religioso e o respeito. Para Bezerra, não importava o rótulo da crença, mas a capacidade de amar.
Dizia, em essência, que ninguém evolui sozinho — e que a verdadeira reforma começa dentro.
Parte V — A morte que não encerrou o caminho
Quando Bezerra de Menezes desencarnou, em 11 de abril de 1900, o Rio de Janeiro parou. Pobres choraram como quem perde um parente. Não perderam apenas um médico, um político ou um líder religioso. Perderam alguém que os via.
Mas certas presenças não se encerram com a morte. Transformam-se em referência. Seu nome passou a ser invocado em preces, estudos, centros espíritas, livros e, principalmente, em atitudes.
Bezerra virou verbo silencioso: servir sem esperar retorno.
Conclusão — O legado que ainda pergunta
Escrever sobre Bezerra de Menezes é mais do que contar uma biografia. É aceitar um incômodo gentil: o que estou fazendo com o que sei, com o que tenho, com o que sou?
Ele não foi perfeito, mas foi coerente. Não foi santo canonizado, mas foi humano ao extremo. Em tempos de pressa, sua vida ensina pausa. Em tempos de ego, ensina doação. Em tempos de discurso, ensina exemplo.
Talvez por isso continue atual. Porque enquanto houver desigualdade, dor e abandono, a história de Bezerra continuará necessária.
Citações e Referências
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KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
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FEB – Federação Espírita Brasileira. Bezerra de Menezes: O Médico dos Pobres.
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WANTUIL, Zeus. Bezerra de Menezes.
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PEREIRA, Luciano dos Anjos. Bezerra de Menezes: Traços Biográficos.
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Site oficial da Federação Espírita Brasileira (FEB).
*Enoque Alves Rodrigues












